Pensei: os misantropos merecem ser ouvidos, embora não o queiram. Por isso criei neste dia, 31 de Outubro de 2008, à minha imagem e semelhança, este diário secreto, calmo e pouco espalhafatoso (espero), patrocinado por monsieur de Molière. Sou um anónimo, mas só porque me confesso muito e tenho vergonha de dar a cara. Se puder ofender, ofendo toda a gente, sou um misantropo anónimo.
Sou um misantropo e, enquanto misantropo, não enquanto escritor, sou um duro, sem flores, sem literaturas. Não quero, não posso ver os outros, mas não os odeio. Todo eu, contraditoriamente, sou ternura revoltada e solitária. Desenganem-se, os misantropos não odeiam ninguém. E são honestos. Dêem-lhes emprego à confiança, mas num escritório só para eles, sem chefe à vista, sem colegas, a não ser alguma secretária balzaquiana que nos faça carícias silenciosas debaixo da secretária, lave a boca com o whiskie do nosso frasco, retoque os lábios e vá para o lugar dela, bem longe (é a minha fantasia recorrente).
Sou passivo, mas em pensamento gosto de ler nas entrelinhas do destino e de me atirar aos entrefolhos da realidade, gosto de arremessar à cabeça dos outros tijolos de poemas, ah foda-se, como eu gosto destes achados literários nada próprios de mim.
Há dias em que me deito ao lado do cão, ou o cão ao meu lado, numa cama enorme e vã, e o meu sexo incha em vão debaixo das calças, e tenho medo de me despir, meter debaixo dos lençóis e enfrentar a noite. Só penso em ti, mulher por mim perdida e nunca achada. Mas há dias em que sou um revolucionário do caralho e deixo de me sentir tão vítima. Há outros dias em que a minha ternura enche o mundo, mas mistura-se com a pena de mim, e depois com a pena dos outros que é também pena de mim como recurso de auto-ajuda. E às vezes tudo isto no mesmo dia, na mesma hora. Espero reflectir aqui estas disparidades, o mesmo que disparates se por acaso não sabiam, com os meus textos semiliterários, em suma: as minhas crónicas do misantropo.
Não vou defender aqui nada nem ninguém, nem sequer monsieur de Molière.
Ainda o dia 31 de Outubro, mas de manhã
De recorrente só tenho as fantasias e o herpes genital. Tudo em mim é secreto e não sobe aos lábios. E também me é recorrente uma mísera reforma por invalidez precoce que me dá para o minimercado, para o café, para a renda de casa e para um bingo cauteloso de vez em quando. Cultivo as minhas batatas e couves em pleno centro da cidade, e esta é a parte equívoca e literária. De decorrente, tenho a monotonia da vida. De manhã manifesta-se a bílis, fico revolucionário, quem paga são os empregados e o patrão do café que já por duas vezes tentaram bater-me. Valeu-me a velha polaca imigrada, mãe do violinista e por ele abandonada à miséria, que me acha um génio alcoólico em recuperação e passa metade da vida no café a ingerir nostalgia por copos pequenos. Devo ter a mesma idade do violinista, quarenta, talvez ele seja quase careca como eu, ou um misantropo sempre retirado no fosso de orquestra e num T0 de qualidade nas Olaias. E a mãe seja uma cabra velha e maligna que nunca o deixou casar. No meu café ameaçam-nos mas aceitam-nos, nunca se vê lá uma família – o senhor, a senhora, a velha, a adolescente gorda, o puto sempre amuado e moreno, o senhor a brincar com a chave do Yaris, a gorducha com olhinhos para toda a gente, o puto enigmático mas também visivelmente pecador a babujar-se um pouco dos beiços grossos –, vê-se a malta equívoca como eu, a velha polaca muito pintada e com um cabelo raro e escandalosamente louro, vê-se o trolha ladrão, o figurante, o estudante com projectos com pernas para caminhar, como ele diz, três bêbados crónicos, dois motoqueiros sem motas, as ex-prostitutas do bairro, os respeitáveis reformados que por hábito enraizado têm aguentado a degradação humana do meu café e não mudaram de poiso, os drogados em “recuperação” – e toda esta malta eu abomino e, se me embebedo, eu amo e amocho.
Ainda o dia 31 de Outubro, à hora do bitoque
É a minha única refeição diária a sério. O povo é a vergonha deste país – podia ser o título do sermão pós-prandial desta entrada. Costumo ler enquanto como, o ovo tem de ser bem líquido, o molho pouco, o prato servido sem salada, o Albuquerque já sabe, a batata-frita bem frita e no momento, os pickles só de cenoura e pepino, a carne tem de ser de vaca e mal passada, dispenso as azeitonas. À refeição leio os clássicos e os modernos, o Correio da Manhã e o Recorde e, se me deixassem ser crítico literário, arrasava tudo. Sou talvez o único português de quarenta anos que lê Jean-Paul Sartre à hora da refeição. A minha mulher fugiu com um professor de Latim (haverá coisa mais ridícula do que fugir com um assim?), mas no café não sabem, pensam que se mudou para Coimbra porque eu lhe fazia a vida negra. Inventaram isso (porquê Coimbra?) e eu aceito. A salada far-me-ia bem --- respeitem as formas verbais, por mais ridículas que pareçam ---, mas tenho medo dos germes. O misantropo é um homem honesto que protesta contra a mentira da vida e que, por isso mesmo, se acha inevitavelmente sozinho, penso eu e assento logo no canhenho, a frase é banal, pode ser de outro, mas veio-me à cabeça, é minha. Termino com o café. Da minha mesa vejo, como de uma janela, a mentira horrenda, como posso coabitar com ela? Abomino sobretudo o lado popular do meu bairro, a falta de sensibilidade das gordas peixeiras, merceeiras, pasteleiras, cabeleireiras e fadistas, que falam alto e são idolatradas medrosamente pelos intelectuais burgueses que também aqui caem, à procura de exotismo de classe. Cuidado, são umas ladras mal formadas, senhores intelectuais ingénuos, cada qual tem a sua história escabrosa de maus tratos aos velhos e crianças da família, de vendas ilícitas, de má-língua venenosa que prejudica os mais fracos, de estupidez pecaminosa, mas muito teatrais nos saracoteios e na alta voz, tudo falso, senhores ingénuos, onde se metem estragam, difamam. Os homens são réplicas alcoólicas ou idiotas das mulheres. Os jovens e as jovens deram para o torto. O povo é a vergonha deste país.

1 comentário:
na sequência do seu mail, vim ver isto e gostei. Mas digo-lhe já que não vai longe, está muito à frente, o pessoal dos blogues gosta de maior «simplicidade».
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